Rumbelsperger

Quando o poeta francês Victor Hugo criou o conceito da “cor local”, no auge do Romantismo, certamente não imaginou que, séculos depois, o mundo absorveria a mesma ideia como tendência de comportamento e estilo de vida, influenciando escolhas individuais e padrões de conduta. Estamos falando do localismo, um movimento de busca por vivências que aproximem visitantes da rotina, da cultura e dos modos de vida locais, ainda que por poucos dias.

Mas, uma coisa é certa: não adianta estampar “I love (insira aqui sua cidade)” se isso não vier acompanhado de uma estratégia consistente. Afinal, o turismo contemporâneo já não se limita a cartões-postais, roteiros engessados ou experiências genérica

Tal movimento de retorno ao peculiar, entretanto, não é casual. Ele reflete uma transformação mais ampla no comportamento do turista, que passa a buscar significado, autenticidade e participação, e não apenas deslocamento físico.

Assim como observa John Urry (2002), o turismo deixou de ser apenas visual (“o olhar do turista”) para se tornar experiencial, relacional e sensorial. É uma completa guinada para longe da pasteurização dos modos de perceber o viajante.

A virada das experiências!

Um dos exemplos mais claros dessa mudança é o Airbnb. Em 2016, ao lançar as Airbnb Experiences, a plataforma ampliou sua atuação para além da hospedagem, apostando em atividades conduzidas por moradores locais: aulas de culinária, passeios por bairros, vivências em mercados, histórias contadas por quem vive o território no dia a dia.

Essa iniciativa ajudou a consolidar uma nova lógica no turismo: a de que viajar não é apenas “ir a um lugar”, mas experimentar formas de vida. Segundo dados da própria empresa, hoje existem mais de 40 mil experiências em cerca de 2.000 destinos, com mais de 1,2 milhão de avaliações. Esse é um indicativo claro de que o interesse por experiências culturalmente situadas não é marginal.

Do ponto de vista teórico, esse movimento dialoga diretamente com a noção de ‘’economia da experiência’’, proposta por Pine e Gilmore (1999), segundo a qual valor econômico passa a ser gerado não apenas por serviços ou produtos, mas por experiências memoráveis e contextualizadas.

Turismo não é vitrine.

Quando falamos em turismo baseado em experiências locais, não estamos falando de “encenar” a cultura para o visitante. Pelo contrário. Pesquisadores como Greg Richards (2018) mostram que o turismo cultural contemporâneo se sustenta justamente na valorização do cotidiano, do ordinário e do vivido e não na espetacularização artificial do território.

É essa lógica que orienta os projetos ligados ao turismo nos quais atuamos aqui na Rumbelsperger. Em um de nossos trabalhos, o desafio foi estruturar uma proposta que aproximasse visitantes da vida cotidiana de uma comunidade, sem criar atrações artificiais. 

O foco esteve em valorizar o que já existia: o café onde os moradores se encontram, os eventos culturais locais, os espaços que já fazem sentido para quem vive ali.

E o resultado mostrou algo fundamental: autenticidade não se inventa – se reconhece e se traduz. E quando essa visão se transforma em modelo de negócio, ela pode, sim, se tornar um diferencial competitivo.

Território, negócio e comunidade: o caso da Casa 15.

Essa mesma perspectiva orientou o desenvolvimento do projeto Casa 15, em Brazópolis (MG). Aqui, o desafio foi ainda mais complexo, pois não se tratava apenas de criar um espaço atrativo para visitantes, mas de desenhar um negócio que fosse relevante para a cidade, para a comunidade local e, ao mesmo tempo, compatível com as necessidades individuais da proprietária.

Para isso, o trabalho envolveu mapeamento de públicos, identificação de demandas locais, análise de concorrência e oportunidades de mercado. Cada decisão foi tomada a partir de uma pergunta central: ‘’Isso faz sentido para este local?’’

Essa abordagem dialoga com o que a antropologia do turismo aponta há décadas: destinos não são cenários neutros, mas espaços sociais vivos, atravessados por relações, expectativas e disputas (Cohen, 1988). Ignorar isso é comprometer a sustentabilidade cultural e econômica do negócio.

Por que a estratégia em turismo começa pela cultura?

Os casos apresentados têm algo essencial em comum: mostram que estratégia em turismo não nasce de slogans, mas de compreensão cultural profunda. Por isso, falar genericamente em “pertencimento” ou “conexão” não garante relevância. 

O que gera valor, de fato, é entender como as pessoas vivem, consomem e se relacionam com o território.

Assim, quando Antropologia e estratégia se encontram, o resultado são negócios capazes de equilibrar viabilidade econômica, impacto local e valor real. – não para o turista ideal e abstrato, mas para pessoas concretas, para além dos rótulos de  visitantes e moradores.

Portanto, no turismo, assim como em outros setores próprios das relações humanas, ver e traduzir a cor local não é um detalhe. É o ponto de partida.

Referências

COHEN, E. Authenticity and Commoditization in Tourism. Annals of Tourism Research, v. 15, n. 3, 1988, p. 371–386. Disponível em : https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/016073838890028X Acesso em: 9 de dezembro de 2025.

PINE, B. J.; GILMORE, J. H. The Experience Economy. Harvard Business School Press, 1999.

RICHARDS, G. Cultural Tourism: A Review of Recent Research and Trends. Journal of Hospitality and Tourism Management, 36, 2018, p. 12–21. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1447677018300755 Acesso em: 9 de dezembro de 2025

URRY, J. The Tourist Gaze. London: Sage, 2002.

 

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