Em 2026, a Rumbelsperger não vai publicar uma nova edição do seu relatório de tendências, mas há um bom motivo para essa decisão: estamos desenvolvendo o Guia Essencial PJ, um relatório inédito e exclusivo sobre hábitos, padrões de consumo e estilo de vida do público PJ.
Ainda assim, não poderíamos deixar de destacar que muitas das tendências projetadas para 2026 já foram listadas como eixos do nosso Relatório de Tendências 2024. O nome disso é consistência analítica!
Então, a nossa ideia aqui não é revisitar previsões ou fazer um mero exercício de retrospectiva, mas, sim, demonstrar como tendências se confirmam ao longo do tempo e se tornam ainda mais visíveis quando observadas no comportamento de consumo atual.
Tendência não é trend!
O ponto de partida continua sendo o mesmo: transformações sociais não surgem de forma repentina. Elas se acumulam até reorganizar prioridades, redefinir critérios de escolha e alterar a forma como as pessoas se relacionam com produtos, serviços e marcas.
Existe uma confusão bastante comum em acreditar que tendência é sinônimo de trend. Embora “tendência” seja a tradução literal do termo em inglês, os conceitos operam em contextos distintos. Trend costuma designar movimentos de rápida difusão, impulsionados por visibilidade midiática e circulação digital acelerada. Já as tendências apontam para mudanças estruturais no comportamento, que produzem efeitos consistentes ao longo do tempo.
Portanto, quando falamos em tendência não se trata de modismo, mas de transformações que reorganizam decisões e formas de consumo.
A necessidade de estabilidade em um mundo cada vez mais instável
O nosso relatório já indicava que a hipermodernização intensifica o acesso à tecnologia e à informação, mas produz desorientação e estresse. Essa distorção acaba encaminhando os consumidores a procurar referências mais estáveis em suas origens, na cultura local e em práticas associadas à memória e à ancestralidade.
Em 2026, isso aparece quando falamos em alimentação, estética e escolha de insumos. Por exemplo, o crescimento de preparações com ingredientes simples, acessíveis e versáteis, como o repolho, não é um fenômeno gastronômico isolado. Ele reúne atributos que respondem diretamente ao contexto atual: alto valor nutricional, custo controlado, múltiplas formas de preparo e conexão com comidas afetivas.

Poderíamos evocar vários outros exemplos, como o vinagre, as conservas caseiras, os biscoitinhos do café da tarde… afinal, quem não tem uma receita preferida da avó?!
Assim, a reinterpretação da cozinha tradicional e a valorização de processos artesanais mostram que o passado, além de ser referência estética, passou a operar também como estratégia de estabilidade, de reconexão com aquilo que serve como conforto emocional.
Esse mesmo movimento aparece na valorização de materiais naturais, formas orgânicas e objetos que evidenciam processo e origem. Em um cenário percebido como instável, o consumo passa a buscar previsibilidade, rastreabilidade e coerência.
Bem-estar como a bússola das escolhas
Outro aspecto que apontamos no Relatório de Tendências 2024 é a necessidade de proteção e segurança como resposta à imprevisibilidade do futuro, intensificada com o cenário econômico recente.
Dados da Euromonitor mostram que 58% dos consumidores relatam níveis moderados a extremos de estresse, o que altera diretamente a forma de consumir. Nesse sentido, o conforto deixa de ser uma característica do produto e passa a ser um critério central de decisão.
Isso se traduz em escolhas alimentares mais funcionais, porções menores, formatos que evitam desperdício e produtos que entregam benefício tangível. O crescimento da snackficação, por exemplo, e das porções controladas não está ligado apenas à praticidade, mas ao controle simultâneo do orçamento, da saúde e do tempo.

Dentro desse cenário, o impacto do uso das canetas emagrecedoras acelera esse processo ao modificar a relação com o volume alimentar. A busca passa a ser por consumo com menor ingestão, o que reorganiza categorias inteiras de produtos.
Assim, o ato de comer passa a ser orientado por funcionalidade, saciedade e densidade calórica.
As calorias, os gramas de proteína, gordura e carboidrato assumem o protagonismo das refeições e posicionam o ato de comer como um conjunto quantificável. Esse comportamento reforça a ideia de que o alimento é percebido como substância, e não apenas como ocasião.
Ao mesmo tempo, há uma crescente predileção por alimentos ‘’de verdade’’, que fujam da industrialização excessiva, como forma de cuidar do corpo e da mente.
Ultra personalização como medida de valor
A ultra personalização, outro eixo importante do nosso relatório, ganha força quando observada a partir das mudanças demográficas. Por exemplo, a reorganização das famílias brasileiras altera a lógica do consumo cotidiano.
Segundo o IBGE, casais com filhos deixaram de ser maioria e os domicílios unipessoais chegaram a 18,8% do total, enquanto casais sem filhos quase dobraram de participação nas últimas décadas. Esse dado não indica apenas uma mudança na composição das casas, mas uma transformação na forma como vínculos afetivos e responsabilidades são distribuídos.
Nesse contexto, o crescimento do mercado pet deixa de ser um fenômeno de nicho e passa a ser um desdobramento direto da nova configuração familiar.

O pet ocupa o lugar de membro da família e entra na lógica da personalização, com serviços específicos, produtos premium e cuidados de saúde orientados por características individuais. Afinal, toda mãe e pai de pet querem o melhor para seus filhos de quatro patas!
Esse mesmo princípio orienta outras categorias, como a área da saúde, mas a questão central é a escolha do consumidor por marcas que se adaptam ao seu estilo de vida e que facilitam a rotina. O gasto se torna mais cauteloso, mas também mais intencional.
Segundo a NielsenIQ, a decisão de compra está cada vez mais vinculada à percepção clara de benefício, à experiência oferecida e à coerência com o momento de vida da pessoa. Assim, a necessidade das empresas passa a ser gerar valor percebido dos seus produtos ou serviços, a fim de passar confiança e relevância para um consumidor que segue cauteloso e extremamente seletivo.
Em síntese, vence quem reconhece a complexidade desse consumidor e entende que a decisão de compra está cada vez mais ligada à capacidade das marcas de responder a demandas específicas.
Assim, a personalização deixa de ser diferencial e passa a ser critério de escolha, porque é ela que traduz relevância, otimiza recursos e legitima o consumo aos olhos de quem compra.
Fisicalidade como resposta ao excesso digital
Por fim, a cultura digital aparece como espaço de estímulo a esses comportamentos. O relatório já apontava que o debate não seria mais entre físico e virtual, mas sobre a integração entre os dois.
Em 2026, essa integração se consolida, pois o consumidor transita por vários canais antes de decidir uma compra e espera consistência entre eles. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por experiências presenciais que permitam interação humana, jogos analógicos e ativações físicas.
Nesse sentido, a fisicalidade não é uma rejeição à tecnologia, mas uma resposta à exaustão digital e à dificuldade de processar emoções complexas em ambientes hiperconectados.

A lógica da fisicalidade funciona como um contraponto ao excesso de estímulos que marcam a vida digital. Ela responde ao excesso de telas, notificações, conteúdos editados, filtros e experiências mediadas por algoritmos que organizam o que se vê, o que se consome e como se interage.
Assim, cresce o interesse por aquilo que pode ser acompanhado de perto: o preparo de um alimento, o funcionamento real de um serviço, os bastidores de produção de uma marca, o depoimento sem roteiro, o ambiente sem cenografia.
Quanto mais o cotidiano é atravessado por narrativas altamente produzidas, maior é o interesse por quem mostra processo, tempo, presença e imperfeição. Esse movimento aparece na busca por ambientes, marcas e influenciadores que expõem bastidores, mostram o fazer, evidenciam imperfeições e reduzem a distância entre promessa e entrega.
Não se trata de substituir o digital, mas de um reequilíbrio dos critérios de confiança. A tecnologia continua central, mas abre espaço para que a autenticidade se torne um elemento decisivo para o consumidor na escolha e na construção de vínculo com marcas, empresas e influenciadores.
Transformar complexidade em estratégia é o caminho!
Observar essas tendências em conjunto mostra que o comportamento do consumidor em 2026 não é definido por modismos, mas por respostas consistentes a tensões sociais, econômicas e emocionais.
É essa leitura de longo prazo que permite compreender a complexidade do consumidor contemporâneo e transformá-la em estratégia de negócio com mais precisão, viabilidade e potencial de rentabilidade.
Não se trata apenas de antecipar movimentos, mas de interpretar o que já está em curso para orientar decisões mais consistentes.
Negócios que operam apenas a partir de recortes demográficos ou de oscilações de curto prazo tendem a responder de forma tática a mudanças que são estruturais. A leitura cultural do consumo amplia a capacidade de decisão porque revela os critérios que passam a organizar escolha, valor e vínculo. É nesse nível que produtos, serviços, comunicação e posicionamento deixam de ser respostas pontuais e passam a compor estratégias inteligentes de negócio.
Este texto foi elaborado a partir do Relatório de Tendências 2024 – Tendências em comportamento do consumidor com casos inspiracionais para sua empresa atender às necessidades das pessoas, organizado e publicado pela Rumbelsperger. O material aborda os principais eixos de tendências do comportamento do consumidor e desdobra esses movimentos em leituras estratégicas, casos inspiracionais e direcionamentos para negócios.
Referências
ELLE BRASIL. Tendências gastronômicas para 2026. Disponível em: https://elle.com.br/lifestyle/tendencias-gastronomicas-2026. Acesso em: 25 fev. 2026.
EUROMONITOR INTERNATIONAL. Euromonitor International revela as principais tendências globais de consumo para 2026. 2025. Disponível em: https://www.euromonitor.com/newsroom/press-releases/november-2025/euromonitor-international-revela-as-principais-tend%C3%AAncias-globais-de-consumo-para-2026. Acesso em: 24 fev. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo 2022: pela primeira vez menos da metade das famílias do país são formadas por casais com filhos. Agência de Notícias IBGE, 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44960-censo-2022-pela-primeira-vez-menos-da-metade-das-familias-do-pais-sao-formadas-por-casais-com-filhos. Acesso em: 24 fev. 2026.
MEIO & MENSAGEM. As tendências que moldarão o consumo este ano. Disponível em: https://www.meioemensagem.com.br/marketing/as-tendencias-que-moldarao-o-consumo-este-ano. Acesso em: 25 fev. 2026.
NIELSENIQ. Consumer Outlook: Guide to 2026. 2025. Disponível em: https://nielseniq.com/global/en/insights/report/2025/consumer-outlook-guide-to-2026/. Acesso em: 24 fev. 2026.
RUMBELSPERGER. Relatório de Tendências 2024:tendências em comportamento do consumidor com casos inspiracionais para sua empresa atender às necessidades das pessoas.
WGSN. Consumer Trends 2026. Disponível em: https://www.wgsn.com/fd/p/article/68a2ec72dcd010aa368b2c87?lang=pt#page2. Acesso em: 25 fev. 2026.