A associação mental que normalmente se faz à figura do empresário vai desde bolsos recheados até o acúmulo de bens de alto luxo. Grandes conglomerados, faturamentos altos e crescimento exponencial são aspectos do personagem com espaço garantido no imaginário coletivo.
O cenário, tão presente nas narrativas de sucesso, realmente existe, mas é apenas um recorte dentro das muitas realidades possíveis para o empresariado brasileiro.
Em 2025, por exemplo, o país atingiu a marca de 4,6 milhões de pequenos negócios, segundo levantamento divulgado pela Agência Brasil.
No Brasil, o número de empresas cresce de forma consistente, impulsionado pela ampliação do acesso à formalização e pela diversidade de caminhos para a geração de renda. E quem lidera esse movimento são microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte.
Ao mesmo tempo, a forma como as pessoas se reconhecem dentro desse universo nem sempre acompanha essa transformação. Há um descompasso entre prática e percepção: muitos profissionais que atuam como empresa ainda não se identificam como empresários.
O desalinhamento não é casual: ele está ligado a referências culturais, acesso à informação e à forma como o sucesso empresarial é representado socialmente.
Ao observar os dados do RaioX Hábitos Bancários PJ, realizado pela Rumbelsperger Antropologia para um cliente do setor financeiro, em 2024, fica evidente que o faturamento influencia essa percepção, mas esse dado é apenas a filigrana de um vasto campo de análise.
O imaginário do empresário no Brasil
No Brasil, a figura do empresário foi construída muito mais como imagem do que como categoria concreta. Sobre ele há um imaginário muito específico: domínio de grandes empresas, equipes numerosas, escritórios estruturados e, principalmente, lucros significativos.
Nossas pesquisas mostram que, conforme a renda mensal aumenta, cresce também o número de pessoas que se identificam como empresárias. Entre aqueles com menor faturamento, a tendência é se definir como autônomo ou empreendedor.
O movimento mostra uma hierarquia simbólica: o termo “empresário” é visto como marcador de um estágio mais avançado. Essa leitura, porém, não acompanha a transformação do ambiente de negócios.
Hoje, empresas podem existir em formatos mais enxutos, com operação digital, equipes reduzidas e atuação descentralizada. Ainda assim, o reconhecimento dessa condição não ocorre de forma automática e a percepção geral permanece ancorada em modelos mais tradicionais.
O fenômeno não surge por acaso e é alimentado por uma combinação de fatores como a valorização social do crescimento financeiro como medida de sucesso, a exposição midiática de grandes cases e a narrativa dominante do empreendedorismo como estilo de vida aspiracional.
Essa construção não é nova. Autores como Pierre Bourdieu já mostravam como o reconhecimento social depende não apenas da realidade objetiva, mas da forma como ela é percebida e validada coletivamente.
Como consequência, muitos profissionais que já operam formalmente seus negócios ainda hesitam em se nomear como empresários. Preferem termos como “empreendedor”, “autônomo” ou “freelancer”, mesmo quando já possuem CNPJ, estrutura e responsabilidades típicas de uma empresa.
O que fica fora do enquadramento?
O descompasso pode ser melhor compreendido a partir do conceito de dismorfia financeira – um desencontro entre a forma como o indivíduo percebe sua situação econômica e sua condição efetiva.
No caso em questão, a dismorfia aparece quando profissionais com CNPJ ativo, emissão de nota fiscal e carteira de clientes não se reconhecem como empresários.
Quando o faturamento vira a principal lente, outras dimensões da atividade empresarial perdem espaço na percepção – isso não significa que elas deixam de existir, mas que não são plenamente reconhecidas como parte daquilo que chamamos de “ser empresário”.
Essa distorção dialoga diretamente com a ideia de capital simbólico, também trabalhada por Bourdieu, em que certos atributos ganham mais valor social do que outros, independentemente de sua centralidade real.
Segundo o SEBRAE, as micro e pequenas empresas representam mais de 90% dos negócios no Brasil – ou seja, a maioria está longe dos grandes volumes financeiros que costumam aparecer nas narrativas mais difundidas.
São esses negócios que compõem a base da economia, sustentam cadeias produtivas e mantêm o sistema em funcionamento. Assim, será mesmo que as pessoas que administram estas organizações não são empresários e empresárias?
Então, ser empresário é faturar muito?
Ser empresário está menos ligado ao tamanho do faturamento e mais à decisão de estruturar, formalizar e sustentar uma atividade econômica dentro de um sistema.
Ganhar dinheiro influencia, sim, a forma como os profissionais se percebem, mas isso não é critério suficiente para definir quem é empresário. A bem da verdade, a definição formal é muito mais simples: quem exerce atividade econômica organizada por meio de um CNPJ já atua como empresa.
O faturamento pode crescer, a escala pode mudar, a ambição pode se expandir, mas a ‘’identidade’’ empresarial começa bem antes disso…
Certamente, reconhecer essa pluralidade de dimensões do empresariado é a premissa central que nos permitirá enxergar o ecossistema como ele realmente é: não como um topo, com o ar rarefeito das altitudes isoladas, mas como uma base robusta, ativa, ampla e multifacetada, como todo o esforço coletivo fundamental para o desenvolvimento econômico do país.
Referências
AGÊNCIA BRASIL. Brasil registra recorde com 4,6 milhões de pequenos negócios em 2025. Brasília, 9 dez. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-12/brasil-registra-recorde-com-46-milhoes-de-pequenos-negocios-em-2025. Acesso em: 13 abr. 2026.
BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2007.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Demografia das empresas e estatísticas de empreendedorismo. Rio de Janeiro: IBGE, 2022. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 20 abr. 2026.
SERVIÇO BRASILEIRO DE APOIO ÀS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS (SEBRAE). Pequenos negócios em números. Brasília: SEBRAE, 2023. Disponível em: https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/ufs/sp/sebraeaz/pequenos-negocios-em-numeros,12e8794363447510VgnVCM1000004c00210aRCRD. Acesso em: 13 abr. 2026.